Credo

Um deus é uma metáfora que ilumina a existência.

Nenhum homem e mulher ainda é sábio o suficiente para dizer se tais metáforas são inventadas ou descobertas. Sabemos apenas que eles nos iluminam pela beleza, pelo poder, pela coerência.

Robert Anton Wilson
Robert Anton Wilson

Um deus é uma metáfora que ilumina a existência.

Nenhum homem e mulher ainda é sábio o suficiente para dizer se tais metáforas são inventadas ou descobertas. Sabemos apenas que eles nos iluminam pela beleza, pelo poder, pela coerência.

A beleza não é suficiente para manifestar um deus vivo, uma metáfora que nos ilumina.

A beleza manifesta ninfas e sirenes e vários elementais; mas um deus é conhecido também por poder e coerência.

O poder, da mesma forma, pode não manifestar um deus vivo. O poder manifesta demônios, sátiros e monstros; mas um deus é conhecido também pela beleza e coerência.

A coerência, da mesma pegada, pode não manifestar um deus vivo. A coerência manifesta templos nos quais os deuses podem habitar. Esses templos podem não ser arquitetônicos no sentido estrito; A música de Bach, a tabuada de multiplicação, as cartas do Tarô, a Tabela Periódica dos Elementos, grandes pinturas e muitos outros artefatos semelhantes são templos nos quais um deus vivo pode habitar.

Sabe-se que um deus está no templo quando, depois de contemplar a coerência da estrutura, é capturado, violentamente, pelo poder e beleza dela, como por uma luz, uma chama ou uma refulgência.

Essa iluminação é uma descarga de energia e informações compactadas.

Um deus pode estar presente no templo para um espectador e não para outro. É uma ocorrência comum, porque homens e mulheres são variados e diferem em sua capacidade de apreender beleza, poder e coerência.

Pode-se aprender a apreender a beleza mais plenamente; essa é a função das artes. Pode-se aprender a apreender o poder mais plenamente; essa é a função da tecnologia. Pode-se aprender a apreender a coerência mais plenamente; essa é a função da pura ciência e filosofia.

Diz-se que aqueles que apreendem apenas a beleza são seduzidos pelas ninfas ou sirenes. Os irlandeses dizem que “suas mentes foram roubadas pelas fadas”.

Aqueles que apreendem o poder só se tornam possuídos por demônios, e dizem figurativamente que dão à luz monstros.

Aqueles que apreendem coerência só se tornam conchas e mausoléus vazios, ruínas e labirintos.

Pode-se entender um deus parcial ou totalmente.

Aqueles que entendem deuses parcialmente podem pensar neles como construções lingüísticas, sistemas de informação, complexos psicológicos, leis históricas ou outras formas parciais.

Compreender um deus completamente é tornar-se um com ele. Isso não pode ser alcançado sem equilíbrio, sem harmonia.

É muito mais fácil se tornar um com uma ninfa, um elementar, um demônio, um monstro ou um mausoléu vazio.

Todos os místicos de todas as tradições concordam que um deus não pode ser explorado.

As religiões organizadas são conspirações para explorar vários deuses, lisonjeando-os, obrigando-os através de rituais ou subornando-os.

A experiência indica que essas técnicas não funcionam, e os pretensos exploradores são meramente seduzidos por sereias ou possuídos por demônios ou, de outra forma, se tornam eles mesmos os explorados.

Um deus não é mostrado ou manifesto, uma teofania não ocorre, até que a exploração seja abandonada por simples amor. Pode haver beleza, poder e coerência, mas o deus é apenas apreendido vagamente, não totalmente compreendido, até que a mente seja inflamada pelo amor.

Este é o significado da observação de Spinoza de que “o amor intelectual pelas coisas consiste em entender suas perfeições”; e “Amare videre est”, de Richard St. Victor (Amar é perceber).

Um deus é conhecido por sua beleza, poder e coerência, mas um deus é somente conhecido através do amor. Essa é a essência do ditado dos místicos: “A porta se abre para dentro”.

É possível, e até provável, que ninfas, sátiros e outros sejam apenas deuses que foram apreendidos sem amor – parcialmente, obscuramente, de maneira distorcida”

“Credo” de Robert Anton Wilson

Como Viver Onze Dias em Vinte e Quatro Horas

por Robert Anton Wilson

Já faz quase um ano que tenho datado todas as minhas cartas com meu próprio calendário multicultural. Obviamente, eu sei que uma cronologia multicultural parece algo muito Politicamente Correta, mas não deixe que isto te apavore. O fato é que eu concordo com o culto PC sobre muitas coisas. Na verdade, eu só discordo deles pelo fato de não gostar de sua intolerância, de suas táticas fascistas, de sua introdução da lavagem cerebral maoísta em nossa Academia, de sua absoluta falta de senso de humor ou senso comum mediano. Fora isto, eu quase aprovo as idéias PC.

Para ser sincero, eu comecei a usar um calendário único e não-Ocidental por volta de 1969-71, enquanto escrevia “Illuminatus!” com Bob Shea. Eu me dei conta que o calendário Gregoriano, o sistema padrão do ocidente, data tudo a partir do alegado nascimento de um super-herói de quadrinhos que eu considerava fictício. Ele supostamente tinha uma mãe virgem, um pai que era um pombo, e curava os cegos jogando sujeira em seus olhos. Você pode entender o porquê de minhas dúvidas.

Mas datar tudo a la Papa Gregório não apenas nos condiciona subliminarmente à mitologia do Vaticano, mas também divide artificialmente a história escrita em sua metade, criando uma certa visão torta sobre como as coisas atualmente andaram desde os tempos do neolítico.

Por exemplo: no calendário Gregoriano, a primeira dinastia Egípcia iniciou-se em cerca de 3400 “A.C.”, a fundação de Roma foi em 509 “A.C.” e a indicação do grande javali Pigasus para a presidência dos EUA se deu em 1968 “D.C.”. Tentar escapar da armadilha papista usando A.E.C ( antes da era comum/cristã) e E.C. (era comum/cristã) não ajuda muito. Nós continuamos trancados na realidade-túnel romana.

Efeitos colateriais ainda piores do calendário Gregoriano surgem quando você tenta imaginar o período de tempo abarcado nas datas que acabamos de mencionar. Isto requerer pensamento profundo, boa imaginação histórica e ainda, para aqueles tão perto da senilidade quanto eu, possivelmente rascunhos em papel. No calendário Illuminati, entretanto, estes eventos encontram seu lugar em uma única linha de tempo: a primeira dinastia egípcia inicia por volta de 600 A.L., a fundação de Roma acontece em 3491 A.L. e a apoteose de Pigasus se dá em 5968 A.L. (A.L., como na Maçonaria, significa Anno Lumina — ano de luz). Adicione mais algumas datas (Hassan-i-Sabbah se iluminou em 5092 A.L., os índios americanos descobriram Colombo em 5492 A.L., a Declaração de Independência dos EUA foi assinada em 5776 A.L., Noble Dew Ali nasceu em 1886 A.L.) e a História começa a fazer sentido como uma única seqüência organizada, e não quebrada na metade.

A cronologia Illuminati (ano um A.L., ou 4000 A.C. Gregoriano) começa com o nascimento de Hung Mung, o antigo Caoísta (pré-Taoísta), filósofo chinês que respondia à qualquer pergunta gritando “Eu não sei! Eu não sei!” o mais alto que podia. Assim, o sistema começa com uma data por volta da aurora da civilização e da escrita, e nos permite ver toda a história como uma sequência única, não interrompida por uma mudança brusca feita para comemorar o deus de um único culto esdrúxulo. Continue lendo “Como Viver Onze Dias em Vinte e Quatro Horas”