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duende@divagacoes.org

Uma amiga me fez essa pergunta recentemente. “Para onde vai o mago do caos quando morre?”. Minha resposta imediata foi: “Pra onde quiser. E não vai, se não quiser”. Mas logo em seguida percebi que a pergunta é bem mais complexa e exige uma resposta igualmente profunda. Além de ser uma oportunidade perfeita pra falar um pouco sobre “crença instrumental”, que é um dos principais fundamentos da Magia do Caos. Então decido esboçar algumas ideias acerca dessas questões.

O ponto de partida para a compreensão do papel que a Crença exerce na nossa realidade, é a percepção de que aquilo em que nós acreditamos?—?e a forma como acreditamos?—?influencia diretamente em nosso comportamento, nossa visão de mundo, na maneira como nos relacionamos com tudo e com todos. Assim, perguntas acerca da existência de Deus, de vida após a morte, de reencarnação, no fim das contas, são desimportantes. Isso porque, se a pessoa acredita em um Deus, uma coisa maravilhosa acontece em sua vida: ela passa a viver num mundo em que Deus existe! Igualmente maravilhoso é o que acontece na vida de quem não crê num Deus: para ela, não existe Deus algum.

Nas palavras de Alan Chapman:

“É possível experimentar algo como verdadeiro e depois experimentar o seu exato oposto como igualmente verdadeiro”.

“O fato de que o que nós experimentamos como verdade seja mutável não significa que a Verdade não exista; apenas que a Verdade é experiencial, não fixada ou restringida por conceitos”.

“Se quisermos saber a Verdade sobre qualquer coisa, precisamos experienciá-la”.

Assim, não há um conceito ou ideia rígida, dogmática, que possa dar conta daquilo que conseguimos experienciar. Da perspectiva da Magia do Caos, portanto, “nada é verdadeiro, tudo é permitido”, o que significa dizer, dentre outras coisas, que se pode acreditar no que seja, e que a existência objetiva daquilo em que acreditamos não interessa muito. O que interessa é o resultado que essa crença produz na vida do Mago. A crença é, portanto, “instrumental”, quer dizer, ela serve como instrumento, ou ferramenta, para a produção de certo resultado. Por isso que, quando queremos traçar uma “História da Magia do Caos”, eu gosto de remetê-la primeiramente ao Crowley, especialmente por conta de um parágrafo de seu Magick in Theory and Practice que expressa exatamente essa forma de pensar:

“Neste livro fala-se de Sephiroth e de Caminhos; de Espíritos e Conjurações; de Deuses, Esferas, Planos e muitas outras coisas que podem ou não existir. É imaterial que elas existam ou não. Ao fazer certas coisas, certos resultados seguirão; estudantes são seriamente advertidos a não atribuir realidade objetiva ou validade filosófica a nenhuma delas”.

Todos que estudam Magia do Caos se deparam com a máxima de que é uma perspectiva mágica voltada para os resultados. O que interessa é o que funciona, não o que existe ou o que é real. Mesmo porque, em sendo a Magia o exercício da Vontade para moldar sua realidade, isso significa que a “realidade” é, em última instância, criação da sua própria Vontade, manifestada de acordo com a sua produção mental. Em outras palavras, se “tudo é mental”, como dizem os hermetistas e os budistas, então a sua realidade é um produto da sua mente. Então, poderíamos dizer que a maior força da qual dispomos para criar nossa realidade é a imaginação. É dela que vem todo o mundo humano, considerando que o que é possível perceber como “mundo humano” é sempre uma tentativa de negação e superação do já dado, do já posto.

Para “causar mudanças de acordo com a Vontade”, é necessário compreender que mudar envolve criar algo novo, diferente do que é. E esse algo novo precisa ser imaginado, pois, se é novo, então não existe. Por isso se diz que a Magia é a Arte de transitar entre os mundos visível e invisível. É ir até o mundo invisível, o mundo mental, o Mundo das Ideias, a Imatéria, e trazer algo de lá, concretizando esse algo no mundo visível, material. Cada escola de Magia ensina uma maneira de fazer isso. Entretanto, cada uma busca universalizar seu método como se fosse “o” método, ou “a” verdade. E essa é a principal diferença, a meu ver, entre elas e a Magia do Caos.

O Caos nos diz que não existe “o” método, além do seu método; não existe verdade além da sua verdade. E nem mesmo isso pode ser absolutizado, porque a mudança de paradigmas é estimulada ao máximo, o que quer dizer que você deve buscar voluntariamente acreditar em coisas completamente diferentes de tempos em tempos.

Assim, a experiência é a verdade. O que quer que você possa experienciar como verdade, será verdade enquanto você quiser que seja. Há uma coisa a mais, porém, a respeito do que é possível viver pela própria experiência: a explicação que se dá para aquilo que foi vivenciado é só uma explicação, dentre várias outras possíveis. Isso me lembra de certa vez que questionei, com alguns amigos, a existência de espíritos. Estávamos em um terreiro de Umbanda e eu tive uma experiência incorporatória. Quando os trabalhos acabaram, um amigo veio me perguntar: “e aí, acredita agora em espíritos?”. Ora, e porque eu deveria acreditar? “Porque um espírito se apossou do seu corpo”. Essa é uma explicação possível, certamente. Outra igualmente possível é que eu seja esquizofrênico; ou que tenha acessado o campo de ressonância mórfica e canalizado uma personalidade; ou que eu estava constelando um arquétipo do inconsciente coletivo. O que é “a verdade”?

Cada uma dessas explicações tem suas consequências, ou seja, cada uma produz seus próprios resultados. Em seu livro Onde vivem os demônios?, Frater U.’.D.’. expõe da seguinte forma:

“(…) É uma mera questão de como se vê o próprio Universo de um ponto de vista objetivo. Uma vez que um verdadeiro magista moderno esteja treinando de maneira contínua sua capacidade de mudar suavemente de um paradigma para o outro, não tem muita importância como as coisas ‘realmente’ são, principalmente considerando-se o fato de que a palavra real não detém muito valor”.

Nesse trecho do livro ele está buscando responder à pergunta título. Mais perto do final, aprendemos isso aqui:

“(…) Se você realmente evocar um demônio e este se manifestar, ele sempre parecerá um ser real e autônomo, independentemente do que seu bom senso possa ter a dizer sobre isso. Sejamos francos, uma experiência como essa provavelmente a fará tremer sob sua túnica, e a energia produzida pelo medo torna tais manifestações possíveis, em primeiro lugar. Mas se um demônio aparecer e você pensar, ‘Há! Você não é nada mais que uma projeção de um aspecto sombrio da minha alma’ e sentir-se incrivelmente esperta em fazer isso, tal como o próprio C. G. Jung, então isso não é nada além de bobagem?—?e você então está obviamente muito mais interessada em dar respaldo ao seu conceito intelectual do que em ter uma verdadeira experiência demoníaca”.

Bem, então para onde os Magos do Caos vão quando morrem? Na real, não interessa muito. Mas alguns gostam de acreditar que vão para alguns lugares, porque isso produz certos resultados em suas vidas agora. Particularmente, tendo a deixar a morte para quando eu morrer. Prefiro viver no agora a ficar elaborando teorias sobre o que acontece com a gente quando morremos. Entretanto, gosto do paradigma da existência de espíritos, comunicação com os mortos e reencarnação; ele produz alguns resultados que considero bem interessantes. Preferência pessoal, mesmo. Mas não fico pensando que essa é a Verdade Absoluta do Universo.


Autor: Felipe Cazelli lá no HermetiCAOS

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