skip to Main Content
duende@divagacoes.org
Postura de morte

AOS: Postura de morte: Deixa eu desenhar para vocês

A postura da morte de Austin Osman Spare é a técnica mágica mais incompreendida no mundo.

Sério.

A técnica está brevemente descrita no Livro do Prazer(NT:tem uma cópia dele lá no nosso grupo), então simpatizo completamente com qualquer confusão inicial que os leitores possam ter em relação à postura; Afinal de contas, a escrita de Spare é insana.

Entretanto, uma re-leitura simples da página em questão deve ser suficiente para dissipar essa confusão. Eu posso somente imaginar que as bobagens que aparecem em muitos livros, revistas e sites tentando explicar a postura da morte é devido ao fato de que a maioria das pessoas simplesmente não querem ser questionadas.

O Ritual e Doutrina

A instrução é dada em três parágrafos. Vou dar-lhes na ordem em que são apresentadas no livro:

Deitado(a) de costas preguiçosamente, o corpo expressando a condição de bocejo, suspirando enquanto esboça um sorriso, esta é a idéia da postura. Esquecendo o tempo com essas coisas que eram essenciais – refletindo sua falta de significado, o momento está além do tempo e sua virtude já aconteceu.

Ficando na ponta dos pés, com os braços rígidos, preso atrás pelas mãos, apertado e tensionado ao extremo, o pescoço esticado – respirando profunda e espasmodicamente, até a vertigem e a sensação entrarem em rajadas, dando exaustão e capacidade para o primeiro.

Contemplando o seu reflexo até que ele fique borrado e você não conheça aquele que contempla, feche seus olhos (isto normalmente acontece involuntariamente) e visualize. A luz (sempre um X em curiosas evoluções) que é vista deve ser mantida, nunca a deixando ir, até que o esforço é esquecido, isto dá uma sensação de imensidão (a qual vê uma forma pequena), cujo limite você não pode alcançar. Isto deveria ser praticado antes de se experienciar o precedente. A emoção que é sentida é o conhecimento que lhe conta o por quê.

É óbvio a ser pensado então: “a postura da morte em si é completamente aberta à interpretação (não existe “a” postura). Ela abrange desde prender a respiração até você “apagar” ao ficar olhando para si mesmo(a) no espelho. Ah sim, também é usada para “carregar” sigilos.”

O que é uma bobagem grande gorda e cabeluda.

Postura de morte

Postura de morte Ou Twister entre seus membros?

Se relermos esses três parágrafos, podemos ver que no parágrafo dois (Ficando na ponta dos pés …):

[…]dando exaustão e capacidade para o primeiro.

Em outras palavras, é um exercício preliminar para as instruções dadas no parágrafo um (Deitado(a) de costas …).

Quanto ao exercício dado no parágrafo três (Contemplando o seu reflexo …), somos informados:

Isto deveria ser praticado antes de se experienciar o precedente. A emoção que é sentida é o conhecimento que lhe conta o por quê.

O terceiro parágrafo é, portanto, um exercício preliminar a ser praticado antes das instruções dadas nos parágrafos um e dois.

A postura de morte é propriamente dita no paragrafo 1:

Deitado(a) de costas preguiçosamente, o corpo expressando a condição de bocejo, suspirando enquanto esboça um sorriso, esta é a idéia da postura. Esquecendo o tempo com essas coisas que eram essenciais – refletindo sua falta de significado, o momento está além do tempo e sua virtude já aconteceu.

Então, para esclarecer:

1). Pratique olhar seus olhos no espelho, até que sua reflexão pareça bizarra. Não é de muita ajuda neste momento o Spare lhe dizer “feche os olhos e visualize.” e depois passar a descrever o que você deve ver (“um X em curiosas evoluções”, que entendo que é a imagem deixada na retina – de fato é muito semelhante a um exercício budista-), mas o ponto é: você se concentra em algo, nunca perdendo o foco, até que:

[…]isso provoque um sentimento de imensidão (observado numa pequena forma), cujo limite você não pode alcançar.

Spare é bastante explícito quando ele diz que isso deve ser experimentado antes de praticar a postura da morte propriamente dita.
Em outras palavras, você deve possuir um grau de proficiência em concentração. Conhecendo o histórico mágico de Spare, acredito que ele está aqui descrevendo “Dhyana“.
Deve-se notar que não há nada de especial neste exercício de concentração, como explica Spare pouco depois:

Existem muitos exercícios preliminares, tão inumeráveis quanto os pecados, fúteis por si mesmos, mas indicadores dos meios definitivos.

Uma vez que o estado de Dhyana seja alcançado, podemos passar para a postura da morte em si.

2). A postura da morte requer um grau de relaxamento, e para obter isso, você pode primeiro tensionar todo o corpo e hiperventilar.
Claro, você também pode correr ou levantar alguns pesos – o objetivo é estar relaxado para a prática da postura propriamente dita.
Sendo explícito: segurar sua respiração até que desmaie NÃO é a postura da morte.

3). Assim, uma vez que um grau de competência em concentração é alcançado (ou seja, você pode entrar em um estado de Dhyana ou trance), você pode praticar a postura propriamente dita.

Acredito que a maior dificuldade em compreender a postura da morte reside no fato de que a Spare parece estar nos dizendo para nos deitar, bocejar, sorrir e “soltar” todas as nossas preocupações. Isso não pode estar certo, pode?

Foda-se tudo isso, estou segurando a respiração até que eu desmaie…

Parágrafo 4

A postura realmente acontece quando deita-se de costas, entrando num estado de relaxamento, sem se preocupar com o resto do mundo. No entanto, se você acha que ele está defendendo que a postura é o relaxamento em si, você está perdendo o ponto.

Se olharmos o próximo parágrafo na página 18 do Livro do Prazer(NT:Lembrando que tem ele lá no nosso grupo), Spare tem isso a dizer sobre a postura da morte:

[…]conheça isto por negação de toda a fé através da sua vivência, o fim da dualidade da consciência.[…]

E

[…]Conheça a postura de morte e sua realidade na aniquilação da lei – a ascensão derivada da dualidade.[…]

O objetivo da postura da morte não é alcançar a “gnosis” para “carregar” um sigilo, mas sim experienciar o não-dual. Spare está falando sobre Samadhi, ou a experiência do que ele chamou de Kia.

Spare dá mais detalhes sobre a prática:

A vacuidade primordial (ou crença) não existe pelo exercício de focar a mente em uma negação de todas as coisas concebíveis, a identidade da unidade e da dualidade, caos e uniformidade, etc., etc., mas sim por fazer isto agora, não eventualmente. Perceba, e sinta-se sem a necessidade de um oposto, mas de seu relativo.
Perceba a luz sem sombra por suas próprias cores como contraste, através da invocação da emoção da risada na hora do êxtase na união, e através da prática até que esta emoção seja incansável e sutil. A lei ou a reação são derrotadas por inclusão.[…] Deixe-o praticar isto diariamente, adequadamente, até que ele chegue ao centro do desejo. Ele imitou o grande propósito.[…] Logo, através do impedimento da crença e o sêmen da concepção, eles se tornam simples e cósmicos.

A “vacuidade primordial”, ou Kia, é alcançada cultivando uma consciência da sensação imediata. Por exemplo, em vez de experimentar uma sensação e conhecê-la como “leve”, simplesmente experimente a sensação. A atitude mental correta é a que é experimentada quando você ri; Você aceita toda a experiência e sensações (incluindo a sensação de pensamentos) sem resistência.

Se essa atitude de consciência inclusiva é cultivada em uma prática diária, você eventualmente experimentará um estado de não dualidade e êxtase.

Os paralelos entre as instruções de Spare e as de Buda são bastante impressionantes. A Posição da Morte facilita ter a mesma consciência que “prática de Insight” ou de Vipassana alcançam, uma vez que só podem realmente ser praticadas de forma competente quando grau de proficiência em concentração seja alcançado.

Um Resumo Prático

  1. Pratique exercícios de concentração até experimentar o estado Dhyana;
  2. Pratique estar ciente de todas as sensações e experiências à medida que surgem sem fixar sua atenção ou identificar-se com qualquer coisa (a atitude correta pode ser induzida quando sorri ou gargalha). Isso é mais fácil de fazer quando relaxado, então praticar após um exercício físico é ideal.

Alternativamente, realizar a prática Insight, ou meditar através das praticas de Vipassana ou de meditação taoísta chegará no mesmo resultado.

Ensino básico

Dos 16 capítulos do Livro do Prazer, 8 tratam exclusivamente do não-dual ou Kia, expondo as virtudes da busca do não-dual, fornecendo instruções para alcançar o não-dual ou detalhando o estado resultante uma vez que o não dual seja alcançado e torna-se o comum (o qual ele chama Auto-Amor):

Auto Amor

Happy, por Alex Grey, simbolizando o Auto-Amor

Spare é preocupado essencialmente com o hedonismo (acho que o título do livro ilustra bem isso). Se quer o máximo de êxtase e prazer possível, se quer o maior grau de satisfação, então você deve preocupar-se com o não-dual:

O sábio buscador de prazer, tendo percebido que eles são “níveis diferentes de desejo” e nunca desejáveis, abandona tanto Virtude quanto Vício e se torna um Kiaista. Cavalgando o Tubarão indomável do seu desejo, ele cruza o oceano do princípio dual e engaja a si mesmo em auto-amor.

Auto-amor é o estado que resulta da experiência habitual do não-dual, obtido através da prática da postura da morte todos os dias. É liberdade do desejo.

Diga-me, o que traz o maior prazer: usar sigilos para adquirir um efeito mágico ou a transcendência de todos os desejos?

Por um longo tempo, Spare foi celebrado como o pai da ‘Magia do Caos‘ e o inventor de magia de Sigilos. Entretanto, eu acredito que sua maior conquista mágica – o ensino central de seu livro, foi mal interpretado como sendo um componente arbitrário das magias de sigilos ou completamente ignorado como sendo as divagações de um místico.

Com sua Postura da Morte, Spare conseguiu reduzir a essência de toda prática meditativa a um método muito simples, fácil e agradável de realização mágica genuína; não por qualquer propósito espiritual sublime, mas simplesmente por causa do prazer pelo prazer.

Se você ainda pensa que a magia não tem nada a ver com o misticismo, ou se preocupa unicamente com a manifestação dos resultados materiais, considere o título do livro responsável por “começar tudo”:

O Livro do Prazer (Auto-Amor), A Psicologia do Êxtase

Por Alan Chapman em seu extinto blog.

Traduzido por Duende Chesini – Divagações

Deixe uma resposta

Back To Top
Search