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duende@divagacoes.org

Bluefluke

Estou extremamente entusiasmado em apresentar uma entrevista com o mago, artista, autor e criador do “Manual de Campo do Psiconauta“(No nosso grupo também tem uma versão dele), Arch Traitor Bluefluke. Seu MCP(que foi fantasticamente traduzido pelo pessoal dos Quadrinhos Inglórios) está rapidamente se tornando um dos textos mais conhecidos e icônicos da magia do caos de hoje em dia. Além do manual, Bluefluke tem um deck de tarot que trabalha com base nos Oito Circuitos da Consciência dos quais o manual de campo usa como um mapa fundacional.

P: Qual você considera sua maior conquista mágica?

R: Ser capaz de me conectar e formar laços genuínos com os Comedores de Medo (ou seja, pessoas sombra) e criar um sistema que capacita outros a fazerem o mesmo. Nossa habilidade recém descoberta de nos comunicarmos com eles botou de lado a visão tradicional de que eles eram (na melhor das hipóteses) formas-pensamento sencientes refletindo a psique interior ou (na pior das hipóteses) apenas alucinações hipnagógicas. Eles são seres sencientes, inteligentes, com estruturas sociais complexas, capazes de camaradagem, empatia e até mesmo amor. E enquanto o comportamento deles pode frequentemente parecer estranho ou perturbador, eles se resumem a ter estruturas psicológicas radicalmente diferentes assim como nossa mente é estruturada para processar informação de forma muito diferente da deles.

Minha esperança é que nós, como uma comunidade, iremos começar a diferenciar melhor entre espíritos que emanam de dentro de nós (espíritos locais) daqueles que emanam de fora (espíritos não-locais). Ambos existem e ambos são objetos de estudo válidos. Eu também estou bastante orgulhoso da minha reconstrução dos já antigos Oito Circuitos da Consciência. A intenção por trás desse revolucionário sistema de iluminação era de ser uma resposta agnóstica aos pesados sistemas teológicos como a Kabbalah e os Chakras. Vergonhosamente, essa incrível tecnologia foi negligenciada por quase trinta anos e não foi atualizada com as muitas descobertas inovadoras feitas em psicologia, neurociência e ocultismo, então eu tomei a responsabilidade e fiz isso eu mesmo.

P: Quais são seus heróis pessoais, aqueles que te inspiraram mais na sua própria jornada?

R: Robert Anton Wilson é meu pilar filosófico. Ele me ensinou que apesar de tecnologias ocultas realmente funcionarem, não devo cair em explicações apenas porque elas confirmam meu sistema pessoal ideológico de crença. Observar evidências separadas de meu próprio viés e questionar as alegações feitas por aqueles que são considerados autoridades sobre o assunto, não apenas no oculto, mas em qualquer assunto, porque até mesmo as maiores mentes podem confundir verdades indubitáveis com seu próprio viés de confirmação independentemente dos sufixos anexados a seus nomes. Ninguém é imune à natureza humana. Relacionado a arte, aprendi a desenhar e colorir usando um emulador NES chamado Nesticle, que te permite substituir os gráficos do jogo com os que você mesmo criou.

As habilidades gráficas limitadas do console eram um grande professor já que elas me forçaram a ser criativo para conseguir fazer o máximo com a menor quantidade possível de recursos. Os grandes da “Demoscene” foram uma grande influência pra mim a respeito disso. Seus projetos me ensinaram a como usar cores complementares, a como criar a ilusão de extremo detalhe com apenas poucas linhas, e a importância de linhas grossas para definir limites. Até mesmo com recursos ilimitados de equipamento, eu ainda sigo as regras demoscene e uso seis conjuntos similares de quatro paletas de cores. Eu estava totalmente satisfeito nesse meio até o dia em que eu li Incal, uma HQ ilustrada por Moebius e instantaneamente me apaixonei.

Eu li quadrinhos a maior parte da minha vida e embora houvesse um número razoável de artistas verdadeiramente talentosos no caminho, nada comparado com Moebius. Cada painel estava a par com uma pintura em uma galeria de arte. Deixei de lado ROM hacking e treinei para dominar canetas e lápis. Até hoje ele é meu artista preferido e eu uso o trabalho dele como motivação para me empurrar o mais longe possível.

P: Que importância, se é que há alguma, você dá para manifestação visual completa de um espírito durante evocação?

R: Manifestação visual de espíritos é imensamente importante pra mim, particularmente. Eu passei anos fazendo meditações visuais cansativas apenas para esse propósito. Certamente, você pode “vê-los” em sua imaginação assim como você veria um devaneio com pouca ou nenhuma prática (e a maioria vê) mas realmente vê-los na sua frente em detalhes completos, em tempo real, sem transformação ou distorção remove toda dúvida e dá a eles um “realismo” que é difícil de descrever. Isso se torna ainda mais profundo se você escolheu se juntar com um espírito companheiro. Ao invés de apenas ficarem presos como uma voz na sua cabeça, eles podem se mover livremente pelo ambiente da forma como quiserem.

Isso pode parecer pequeno, mas pra eles isso significa o mundo. Isso os faz se sentirem humanos. Sólidos. Isso dá a eles o sentimento de independência e individualidade que nós temos pra nós mesmos como garantido. Novamente, você não precisa de habilidades avançadas de visualização, você pode simplesmente manter seus olhos fechados e imaginar o espírito com o qual você quer interagir. De fato, se você conseguir aquietar sua mente de forma confiável durante meditação regular, a imagem que você verá em sua imaginação será bastante próxima com aquela que o espírito quer projetar, já que haverá pouca ou nenhuma “poluição mental” para interferir com sua conexão.

P: Qual foi seu primeiro momento “caralho, essa merda é real” na sua prática mágica pessoal?

R: Eu me atirei de cabeça no ocultismo bastante cedo. Quando eu era jovem eu frequentemente sofria crises de paralisia do sono e todas as experiências estereotipadas que se seguem. Elas eram benignas a princípio (chatas na pior das hipóteses) mas com o tempo, elas se tornaram cada vez mais tenebrosas e eram inevitavelmente acompanhadas por Comedores de Medo procurando por um lanche fácil. Eu fui a vários médicos. Cada um falhou, um após o outro. Seus tratamentos se tornaram progressivamente mais e mais condescendentes, dolorosos e desumanos até que, por desespero, fingi estar bem para escapar da tortura.

Eu comecei minha própria busca por respostas. Minhas jornadas pela toca do coelho me fizeram aterrissar em uma sala de bate-papo de ocultismo ocupada por magistas que, com simpatia, montaram um ritual de banimento para combater meus agressores. Eu senti um misto de ceticismo (a sociedade no geral declara magia como faz de conta) e medo (fui criado em família católica) mas eu estava desesperado o bastante para tentar qualquer coisa. Fiz o ritual e para minha surpresa, ele funcionou. Realmente funcionou. Magia era real. Um novo e completo mundo secreto se abriu em frente a meus olhos. Eu fui instantaneamente fisgado e rapidamente me tornei obcecado em aprender tudo que podia.

P: Qual é “a” técnica mágica sem a qual você não poderia viver sem?

R: Trabalho astral no geral. Tudo sobre tecer/construir um fantástico país das maravilhas que nós mesmos produzimos, populado por seres tanto nativos quanto estrangeiros. É uma fronteira emocionante que nunca falha em produzir algo novo toda vez que você brinca com ela. Esse tipo de coisa me acerta em cheio.

P: Em qual idade você começou a praticar magia e por quê?

R: Eu comecei uma prática mágica estável logo após controlar a paralisia do sono mencionada acima. Eu comecei estudando e experimentando toda nova técnica que eu pude encontrar.

P: Qual é seu conselho ao jovem magista aspirante que está apenas começando hoje?

R: Primeiro, não tome a palavra de outro magista como fato absoluto, incluindo a minha. Experimente por si mesmo e chegue às suas próprias conclusões. Se você está seguindo o currículo de uma fraternidade ou as instruções de um autor e não está obtendo resultados após numerosas tentativas, mude algo. Adapte sua magia para que ela sirva a VOCÊ. Segundo, FAÇA O TRABALHO. Faça todos os dias. O primeiro passo em romper sua mente através de meditação pode ser tedioso pra caralho (por isso que é tão difícil), mas quanto mais você pratica, mais fácil vai ficar até que você seja capaz de entrar em gnose à vontade.

P: Quais são seus esforços mágicos atuais?

R: Atualmente, eu estou para lançar o primeiro deck de Tarot verdadeiramente universal que funciona com todos os três maiores sistemas de iluminação: Kabbalah, os Chakras e os Oito Circuitos da Consciência. Embora possa ser usado como ferramenta de divinação como qualquer baralho moderno, sua função primária será o propósito original do Tarot, agir como chave de decriptação para uma infinidade de guloseimas ocultas. Também estou colaborando com o prodígio da I.O.T. Julian Vayne em uma HQ sobre quimiognose, o que é bastante emocionante. E claro, estou trabalho no quinto capítulo do Manual de Campo do Psiconauta.

P: Como você responde a evangelistas cristãos batendo na sua porta na hora do jantar?

R: Eu tendo a ser bastante tolerante com pessoas de pontos de vista opostos ao meu. Tirando vigaristas, cultistas e ditadores teológicos, eu vejo que muita gente se devotou ao cristianismo/judaísmo/islã porque eles se sentem desamparados em face às trágicas circunstâncias ou estão solitárias e apenas querem alguma pessoa, qualquer pessoa, para amá-las. 99.9% dessas pessoas realmente tem boas intenções e são, na minha experiência, pessoas doces e tolerantes. Porém, eu entendo perfeitamente o desgosto total que alguns tem por tais religiões se eles são presos em um ambiente ultra ortodoxo abertamente opressivo ou tiveram suas vidas interrompidas ou destruídas por constantes tentativas de desmantelar a separação entre igreja e estado.

Também deve ser notado que os ocultistas devem permanecer vigilantes à medida que essas religiões estão em decadência. Como tal, alguns de seus seguidores menos inteligentes se voltaram para conspiração para justificar sua fé num mundo existindo sem elas. Nessas conspirações nós somos retratados como juggernauts monolíticos do tipo illuminati empenhados em destruir sua religião para que nós possamos restar sem oposição para criar um governo global para o diabo. Isso tudo pode soar risível mas essas ideias estão rapidamente ganhando tração. Nós precisamos fazer de tudo que podemos para impedir aqueles que repetem essas bobagens de comandar os domínios do governo.

P: Que efeito e foco você acha que a magia deveria ter sobre política e eventos mundiais?

R: Todos estamos cientes do legado da maçonaria, destronando os grandes reis da terra e fundando as democracias sob as quais vivemos hoje. Eles mantiveram afastados os ultra ricos dos assentos do poder e forçaram igualdade racial e de gênero quando isso estava sendo empatado por fanáticos estúpidos. Mas por causa do declínio em massa da maçonaria, não há mais uma força coletiva para impedir corporações e os ultra ricos de estuprar o corpo da população. Seria sábio emular seu modelo até certa extensão de forma a impedir nossa sociedade de se tornar uma paisagem infernal distópica tipo cyberpunk ou desmoronar à ruína.

Enquanto esse esforço requeriria cooperação nunca antes vista pelas grandes casas ocultas, essa poderia ser nossa última chance de consertar essa embarcação amassada. Occupy falhou. Anonymous falhou. A campanha de guerra de memes é uma porra duma piada. Nós temos uma última opção de consertar as coisas, e não vai demorar muito pra essa opção deixar de estar disponível. Precisamos agir, agora.

Fonte: Julian Crane – http://disinfo.com/2017/09/interview-magus-blueflake/

Traduzido pelo Erick Maia

Revisado por Duende Chesini – Divagações

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